Eu nasci e cresci no interior e por conta disso, tive uma educação bastante rígida, tanto em casa como na escola. Eu estudei em uma escola de freiras, onde só era permitido menidas, vejam vocês. Lá fiz o curso de Magistério, que foi meu primeiro contato com as humanas.

Do período escolar em Lagoa Vermelha, eu lembro mesmo é das férias. Época boa era quando eu passava férias no sítio da minha avó materna. Era um paraíso onde eu aprendi a subir em árvores, comer frutas do pé, andar à cavalo e me perder na floresta. Aprendia brincando. Minha avó, que hoje tem 92 anos, sem nunca ter ido à escola, foi alfabetizada em casa e lia muito, sempre foi muito culta. Com ela aprendi as capitais dos países do mundo, histórias sobre civilizações antigas e a ler os livros do Julio Verne.

Depois disso fiz vestibular em Porto Alegre e por aqui fiquei e por aqui fiz minha vida.

Conheci meu marido na faculdade há 20 anos e em 2006 tivemos nosso primeiro filho, o Enzo, hoje com 9 anos.

Com o Enzo aprendi que o amor é incondicional, aprendi a ver a vida com olhos de mãe, com olhos que protegem, olhos que cuidam, olhos que enxergam além do que parece ser verdadeiro. Aprendi a ouvir meus instintos e a perceber que mesmo quando eu nao os ouvia, na maior parte das vezes eles estavam certos.

Aprendi também que apesar da vida não ser fácil ela pode ser trabalhada, estimulada e cuidada para que dê frutos. O Enzo me ensinou a ser paciente, a brincar e fantasiar e ao mesmo tempo a batalhar pelo que é justo. O Enzo é uma criança que brinca, ele vive em mundo de fantasias. Tudo para ele faz parte de alguma aventura, alguma missão ou alguma investigação. O mundo realmente é colorido e sem maldades.

Em 2010 tivemos uma filha, a Giulia, com 5 anos. Enquanto o Enzo vive no mundo da fantasia, a Giulia é super madura, questionadora e também muito sensível.

Nos primeiros anos da vida escolar dos meus filhos comecei a enfrentar meus primeiros desafios com a escola.

Cansei de empurrar meu filho aos prantos para dentro da sala de aula. Não, eu não questionava o porquê dele não querer entrar ou porque ele não queria ir para a escola. Não questionava pois eu acreditava que meu filho estava causando problemas com esse comportamento, que ele é que deveria se ajustar à escola. Mas, com o passar do tempo fui amadurecendo essa questão e aos poucos me dando conta que isso não estava certo e que a escola é que deveria se ajustar às necessidades dos meus filhos. Fui me dando conta que talvez as professoras não estivessem preparadas para receber uma criança como o meu filho.

Entendo que as crianças precisam ser acolhidas em um ambiente de amor, que as compreenda, que entenda as suas necessidades e dificuldades e que as trate como um ser único, sem preconceitos ou rótulos. E que a escola deve propiciar um ambiente lúdico, criativo, instigador e que o aprendizado aconteça de forma natural, unindo vivências e experiências do dia-à-dia aos conteúdos do currículo. E por fim, entendo também que a escola deva orientar as crianças quanto ao respeito às diferenças, para que estejamos formando adultos melhores, mais humanos e mais solidários.

Meu contato e interesse por uma nova escola se deu por meio de mães amigas, a Gláucia e Luciana Célia, que foram me mostrando a idéia da busca por uma escola transformadora, que ainda não tínhamos aqui em Porto Alegre. Me apresentaram também o José Pacheco, que tive oportunidade de conhecer por meio de seus videos. E aí me encantei e vi que é uma realidade possível, que podemos trabalhar juntas em busca dessa escola que tanto idealizamos.

Texto escrito por Fernanda Argenta Lattuada