É nos dois primeiros anos de vida que a criança desenvolve a linguagem. De início, ela se comunica através de gestos simbólicos, fala palavras simples. Então, de repente, dá um salto: de 50 palavras novas aprendidas, passa para 400, incluindo verbos e adjetivos. Começam as frases, os gestos passam a ser mais secundários e as coisas são nomeadas. São iniciadas a comunicação verbal, a compreensão e uso da linguagem, a interação com o seu redor.

Em dois anos, a criança aprende uma língua. E, mais adiante, se começarem a falar em uma língua diferente, aprende essa também. Eu mesma vejo isso na minha filha, Anita, que sabe várias palavras em Libras (Língua Brasileira dos Sinais), porque a avó trabalha com isso e, no meio das brincadeiras, vai nomeando as coisas em libras.

E tudo isso é aprendido independente de frequentar uma escolinha. É aprendido pela interação com os pais e familiares, através do desenvolvimento natural de cada criança. Imagina, se uma criança consegue aprender uma língua, consegue desenvolver todo um entendimento em uma interação sem nem frequentar uma escola, porque precisaria de tanta rigidez, de todas as mil atividades propostas que as escolas têm hoje em dia?

Algumas escolas podam a infância. Aquela que está brotando e que, se regada com amor, atenção e carinho, cresce bonita e saudável. Daí vem a escola: atividade pra isso, para aquilo, nota alta, nota baixa, pode isso, não pode aquilo. E a criança, seu brincar, sua infância, sua exploração do mundo, onde ficam? Ela pode explorar somente o que é proposto? Assim, a infância vai ficando esquecida, pouco desenvolvida no meio de tantas normas. Ela não consegue florescer. Não há espaço para a criança ser livre. Uma criança que nasce neste mundão com tantas coisas a descobrir mal tem tempo para isso, pois está preocupada demais em “ir bem” na escola. E o que é ir bem?  Ir bem é tirar uma nota boa em algo que foi decorado, estudado, mas que talvez nem seja do interesse dela? E se foi mal? É porque não estudou ou porque aquilo realmente não interessa para ela naquele momento?

Confinamento em classes separadas, com o velho (muito usado ainda) espelho de classe, testes de capacidades (as provas, que deixam todos numa pilha de nervos). Em que tudo isso acrescenta? Disciplina, muitos vão dizer. Mas não, essa rigidez, essa repressão só cria crianças e jovens mais revoltados. Quando se garante que esses indivíduos em formação tenham liberdade e atenção, eles se sentem respeitados nas suas individualidades, capacidades e potencialidades; a autoestima se eleva e eles se desenvolvem de maneira fluida e saudável. A autoestima é algo fundamental na vida de uma criança. Uma criança que não é respeitada tem sua autoestima baixa e, logo, não tem motivação para mais nada.

Criança precisa de acolhimento e incentivo,  de interação e de partilha. Precisa brincar, experimentar sentidos, movimentos. Precisa lidar com frustrações e exercer flexibilidade, ajudando no desenvolvimento da resiliência, tão necessária para nós, adultos. Brincar desenvolve coragem e criatividade e mais diversas outras capacidades importantes para saber viver nesse mundo. Mas para isso acontecer é preciso espaço, é preciso respeito é preciso ter em mente que

 “Toda criança, sem exceção, tem um desejo inato de entender o mundo em que vive e de adquirir habilidades e liberdade para atuar nele. Tudo o que realmente contribui para seu entendimento, sua capacidade de crescimento e seu prazer, suas habilidades, seu próprio senso de liberdade, dignidade e valor, pode ser entendido como verdadeira educação. A educação é algo que uma pessoa adquire por si mesma, não é algo que outrem dá ou faz para/por ela.” John Holt (tradução livre)

Por vezes, pensamos que, porque são crianças, não vão entender muita coisa. Então, não ouvimos, simplesmente damos as ordens e é isso que tem que ser feito. Isso se faz em casa mesmo. Um simples exemplo:  a mãe está levando a filha para um compromisso que tinham marcado. No meio do caminho, a criança quer parar, olhar as poças que encontra, vê uma folha bonita no chão, quer pegar e colocar nas poças… E a mãe está atrasada. Simplesmente diz: “Vamos, estamos atrasadas, por que tu estás fazendo isso?” A criança nem sabe para onde está indo, nem tem consciência da importância de chegarem na hora certa. Ela está explorando o que encontra pelo caminho. Isso não quer dizer, porém, que se deve parar para tudo o que ela vê e se atrasar para o compromisso. Deve-se, sim, conversar, respeitando aquele momento dela: “Ah, muito linda essa folha! Quem sabe a levamos para o lugar aonde vamos, porque tem pessoas nos esperando, e precisamos chegar no horário. Na volta passamos por aqui de novo e a colocamos na poça novamente!” Assim, encontramos uma forma de dar importância ao que interessou a criança e, ao mesmo tempo, entrar em acordo para o que é preciso fazer.

Isso é um exemplo básico de respeito que não se deve ter somente na escola, mas é preciso, também, começar em casa. Quando os adultos pensam que as crianças não vão entender, é porque eles mesmos estão com dificuldade de entender essa criança. Diálogo, amor, compaixão, uma comunicação mais empática, é disso que precisamos para lidar com nossos pequenos.

 Texto escrito por Kátia Bressane

Kátia Bressane é casada com Paulo e mãe da Anita (2 anos e 7 meses), vivendo um dia de cada vez  no caminho do equilíbrio pleno e da compaixão. Psicóloga, trabalho com terapias integradas, ludoterapia, comunicação não-violenta,  educação positiva, meditação. Tenho grande interesse pela espiritualidade, principalmente pelos ensinamentos e práticas budistas. Defendo a maternidade ativa e consciente e a criação com apego – com todo o amor!