Mãe, podemos fazer uma escola?

Por Luciana Celia

Quando meu filho tinha 5 anos e 9 meses, iniciou na escola e, nesse mesmo dia, iniciou meu maior desafio: fazê-lo permanecer na escola.

“Mãe, por que a escola é escura? Mãe, posso mudar a escola? Se eu já aprendi na primeira vez, por que tenho que repetir tanto o mesmo exercício? Por que tenho que montar um vaso se eu quero montar um robô? Eu ganhei um cachorro, posso estudar sobre cães na escola? Será que todas as professoras pensam que podem mandar no pensamento das crianças?”

Confesso que, em algumas respostas, titubeei… pelo simples motivo de que algumas das perguntas eram minhas também! Algumas vezes, respondi verbalmente, mesmo que para dizer apenas “não sei, vamos pensar juntos!”. Porém, num determinado momento, tomei uma decisão! E minha resposta deixou de ser verbal para se tornar um caminho, uma busca incessante por Uma Nova Escola.

Continuo dando respostas aos questionamentos do meu filho. São respostas que também consideram uma escola que não precisa ser escura, que, ao contrário, é resplandecente, pois considera como base cada um e cada uma que dela participe, com seus papéis itinerantes de mestres e aprendizes.

Bom, quanto à pergunta dele sobre os professores “mandarem” no pensamento das crianças, deixo aqui, para pensarmos juntos, o registro de Rubem Alves: “O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos.”

Então, em outubro de 2014, conheci pessoalmente o educador português José Pacheco que, com humildade e impactante ousadia, criou Uma Nova Escola, aquela, justo aquela (!) que estimula o questionamento, a colaboração, o despertar do ser, o pensamento científico, a consciência do papel de cada um na sociedade, no planeta, a consciência coletiva, buscando o sentido da vida e conexão com o mundo e, claro, a felicidade!

O encontro com José Pacheco despertou a necessidade de ação e, a partir dali, com uma conduta perseverante, baseada no conceito de que “toda ação gera uma reação” (essa premissa refere-se não só ao campo da física, mas também ao campo da matemática, da química e até das ciências sociais), iniciamos a busca por Uma Nova Escola. A reação foi coletiva e formamos um grupo de mães, que passou a se chamar: “Mães de Uma Nova Escola”.

Realizamos inúmeras reuniões (uma, duas, até sete vezes na semana) com o objetivo de planejarmos, organizarmos e e vencermos as etapas desse desafio, sempre embasadas em teorias e experiências que cada uma trazia consigo e, acima de tudo, impulsionadas por um amor maior. Assim, seguimos, sentindo nossos filhos, ouvindo outras crianças e, com muito trabalho e estudo, fundamos uma associação, construímos um projeto, estudamos sobre escolas inovadoras no Brasil e no mundo, visitamos algumas no Brasil e, principlamente, buscamos inspiração em José Pacheco, Rubem Alves, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima…

Em setembro de 2015, o atual Secretário de Educação do Estado do RS, Vieira da Cunha, nos recebeu e nos honrou ao acatar nosso projeto, afirmando compromisso com o mesmo (Projeto da Ponte, como muitos chamam). Hoje, abril de 2016, estamos acolhidas pela Direção, Vice-Direção e CPM da Escola Estadual de Ensino Fundamental Canadá, em Viamão, onde iniciamos o processo de ressignificação da escola junto à comunidade escolar. Ao mesmo tempo, estamos em tratativas para desenvolver o mesmo projeto em uma escola da rede estadual de educação na cidade de Porto Alegre.

Seguindo as palavras de José Pacheco quando diz “não importa o lugar, mas sim, as pessoas”, daremos continuidade ao nosso objetivo sagrado de ressignificar a Educação no sul do Brasil e honraremos a oportunidade de contribuir para um mundo melhor, mais humano e pacificador.

Foi com muita labuta e com a ajuda de uma rede de pessoas do bem que chegamos até aqui! Sabemos que ainda existe um vasto e lindo caminho a percorrer. E, assim, regadas de amor e esperança, costumamos dizer que a nossa palavra é GRATIDÃO e lembramos de Jean de La Bruyère quando diz: “Não há no mundo exagero mais belo que a gratidão”.

http://www.maesdeumanovaescola.com